Musashi I: Volume 1

O primeiro volume de Musashi é composto pelos livros A Terra, A Água, O Fogo e O Vento (1ª parte). Nele, somos apresentados ao contexto histórico do Japão do século XVII, um período de transição e busca pela paz após anos de guerras civis. A história começa com Takezo, que posteriormente se chamará Musashi, recuperando os sentidos em meio a pilhas de cadáveres da parte vencida na famosa batalha de Sekigahara, em 1600. Takezo é um espírito indomável, movido por uma raiva cega e um desejo visceral de provar sua força. Após a derrota, ele e seu amigo são dados como mortos, mas Takezo retorna à sua aldeia natal, Miyamoto, com uma reputação de selvageria e violência. Em um ponto crucial, ele é capturado e submetido a uma provação inusitada por um monge budista, Takuan, que enxerga potencial por trás da agressividade do jovem. Durante esse período de confinamento forçado, Takezo inicia seu despertar para um entendimento mais profundo do mundo e de si a partir do contato com a literatura e a filosofia, que gradualmente moldam seu caráter. Ao sair da reclusão, ele recebe de Takuan um novo nome: Musashi ― um nome que carrega consigo a promessa de um caminho diferente, focado na busca pela verdadeira maestria marcial e pela iluminação espiritual. Agora como Musashi, ele parte em busca de desafios e oportunidades para aprimorar suas habilidades. Seus encontros são variados e significativos: ele cruza o caminho de outros guerreiros, alguns arrogantes, outros, humildes, cada um oferecendo uma lição diferente sobre a arte da guerra e a vida. Ele também se depara com figuras femininas importantes, como Otsu, uma jovem de beleza e espírito notáveis ligada ao seu passado, e Akemi, uma mulher misteriosa com seus próprios objetivos. Ao longo de suas viagens, Musashi demonstra uma habilidade natural para o combate, mas também revela sua inexperiência e a necessidade de refinar sua técnica. Ele enfrenta duelos perigosos, aprende com seus erros e começa a forjar uma reputação como um espadachim formidável, embora ainda bruto e impetuoso. O primeiro volume de Musashi é, portanto, uma história de transformação e autodescoberta. Acompanhamos a jornada de um jovem selvagem e sem rumo, marcado pela violência e pela falta de propósito, em direção a um caminho de disciplina, aprendizado e busca pela excelência. Por meio de provações físicas e espirituais, Musashi começa a desvendar o verdadeiro significado da força e da maestria, preparando o terreno para os desafios ainda maiores que o aguardam no segundo volume. O livro estabelece os alicerces da lenda de Miyamoto Musashi, cativando o leitor com a intensidade de suas lutas, a profundidade de seus conflitos internos e a promessa de um futuro grandioso

Da editora

“A época em que Musashi viveu foi um período de grande transição no Japão. Após um século de incessantes lutas armadas entre pequenos daimyo ou senhores feudais, três líderes sucessivos finalmente reunificaram o país por meio de conquistas. Oda Nobunaga iniciou o processo, porém, antes de completá-lo, foi traído e morto por um vassalo, em 1582. Seu general mais talentoso, Hideyoshi, que emergiu do mais baixo escalão da infantaria, completou a unificação da nação mas morreu em 1598, antes de poder consolidar o governo do país em nome de seu herdeiro, ainda uma criança. O vassalo mais poderoso de Hideyoshi, Tokugawa Ieyasu, um influente daimyo que do seu castelo em Edo, atual Tóquio, governava boa parte do Japão oriental, conseguiu então a supremacia derrotando a coalizão de daimyo da região ocidental do Japão na histórica batalha de Sekigahara, em 1600. Três anos mais tarde tomou o título tradicional de xogum, significando que impunha a ditadura militar em todo o país, teoricamente em nome da antiga, embora impotente, linhagem imperial baseada em Kyoto. Em 1605, Ieyasu transferiu a posição de xogum para o filho, Hidetada, mas permaneceu ele próprio no controle real do poder até destruir os partidários do herdeiro de Hideyoshi nos cercos ao castelo de Osaka, em 1614 e 1615.”

“O relato do começo da vida de Musashi, feito por Yoshikawa, ilustra todas essas alterações em curso no Japão. Ele era um rounin procedente de um vilarejo nas montanhas, que se estabeleceu na qualidade de samurai avassalado apenas no fim da vida. Foi o fundador de uma escola de esgrima. Mais importante ainda: transformou-se aos poucos, de guerreiro instintivo, em homem que fanaticamente procurava uma autodisciplina estilo zen, o domínio absoluto sobre o próprio íntimo e um sentido de unidade com a natureza ao redor. Embora nos anos iniciais de sua vida competições mortais lembrando os torneios da Europa medieval ainda fossem possíveis, Yoshikawa retrata Musashi mudando conscientemente suas habilidades marciais a serviço da guerra como meio de edificação do caráter em tempos de paz. Habilidades marciais, autodisciplina espiritual e sensibilidade estética fundiram-se num todo, tornando-se indistinguíveis. Este retrato de Musashi pode não estar longe da verdade histórica. Sabe-se que Musashi foi pintor habilidoso e consumado escultor, assim como espadachim.”

Edwin O. Reischauer

Janeiro 1981

Nas moitas à beira do descampado ou nas águas leitosas do rio, onde quer que o olhar caísse jaziam corpos de soldados aliados e inimigos ainda insepultos. Um soldado mergulhara de cabeça numa moita, outro tombara de costas expondo o dorso às águas do rio, outro ainda rolara preso a seu cavalo. À luz do luar, mesmo sem os vestígios de sangue que a chuva ininterrupta de dois dias havia lavado, exibiam a pele lívida e alterada, testemunhas eloquentes do violento combate travado nesse dia.

“Da vida, ninguém sabe o amanhã” (Dito popular). E Oda Nobunaga também costumava declamar: “No mundo em contínua transição, cinquenta anos e uma vida são meros sonho ou ilusão.”

O poema e o dito popular expressam certo tipo de pensamento daqueles tempos, comum a todas as classes sociais, desde as mais baixas até as intelectuais. Realmente, as guerras haviam chegado ao fim e as luzes das cidades de Osaka e Kyoto brilhavam tão intensas quanto no auge do período Muromachi.

As águas do Yodogawa — rio que em Kyoto corre por terras de Fushimi-Momoyama, sede do castelo Fushimi — seguem seu curso e vêm, algumas dezenas de quilômetros adiante, banhar também as pedras da muralha do castelo de Osaka, na baía de Naniwae, constituindo uma ligação natural entre os dois castelos. Talvez seja esse o motivo por que qualquer medida política tomada em Kyoto chegue ao conhecimento do castelo de Osaka instantaneamente e, em contrapartida, qualquer movimentação militar nos arredores de Osaka alcance com incrível precisão os ouvidos dos senhores do castelo Fushimi.

Olhe na direção que o dedo aponta e verá, distante, a estrada de Tanba começando em longa subida. As tênues linhas prateadas visíveis entre árvores e que ferem a vista como raios rasgando o céu são pregas cheias de neve nas encostas das montanhas que circundam a região suburbana a noroeste de Kyoto, seus espigões estabelecendo as fronteiras da província de Tanba.

O Autor

Eiji Yoshikawa nasceu em 1892, em Kanagawa, nos arredores de Tokyo. Ele viria a se tornar um dos maiores, se não o maior, romancista histórico do Japão. Ele é provavelmente mais conhecido pela sua obra “Musashi”, uma recriação histórica da vida do lendário espadachim. Em 1960, recebeu a medalha da Ordem da Cultura, a maior honraria possível para um escritor no Japão. Ele deixou uma vasta obra após sua morte em 1962, sempre debruçando-se sobre eventos da história japonesa. Todos esses trabalhos estão atualmente publicados em sua terra natal pela editora Kodansha, em uma coleção de 80 volumes.

Editora ‏ : ‎ Estação Liberdade
Data da publicação ‏ : ‎ 12 maio 2025
Edição ‏ : ‎ 18ª
Idioma ‏ : ‎ Português
Número de páginas ‏ : ‎ 924 páginas
ISBN-10 ‏ : ‎ 8574483214
ISBN-13 ‏ : ‎ 978-8574483214
Peso do produto ‏ : ‎ 1,22 Kilograms
Dimensões ‏ : ‎ 16 x 4.5 x 23 cm

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